Jerusalém está em todo o lugar
Jesus Cristo bebia
cerveja. Não dá pra dizer que não se trata de um título interessante e curioso.
JC ia em bares romano-israelitas tomar um traguinho com os apóstolos? O untado entornava bem uma loira
gelada? Como assim?
Depois de algumas
semanas afundado até o pescoço em autores de língua inglesa (não que isso seja
necessariamente ruim), achei que era mais do que a hora em que eu deveria
voltar a ler romances escritos na única língua que conta. A minha. A nossa.
Jesus Cristo bebia cerveja conta a
história de Rosa, uma moça que mora com a velha avó quase surda numa vila do
Alentejo, em Portugal. Rosa foi abandonada pela mãe ainda criança e viu o pai
morto, depois deste ter se suicidado. Amparadas apenas pela pequena horta que
têm e pelas pensões que recebem, as duas vivem uma vida de difíceis condições.
Rosa é uma moça tristonha e sonhadora. Vive relembrando os pais que já se foram
e lendo repetidas vezes os mesmos romances de caubóis e alguns romances policiais,
decorando trechos e recordando personagens.
Algum tempo depois,
Rosa passa a viver e trabalhar na casa de um senhor rico da cidade e deixa a
avó aos cuidados de uma vizinha. Entretanto, a situação não é boa nem para Rosa
nem pra sua avó Antônia, que já não enxerga direito e tem frequentes lapsos de
memória. A avó sonha em conhecer a Terra Santa, Jerusalém, mas Rosa sabe que
não há a menor possibilidade disso acontecer.
Rosa então conhece o professor Borja, um
douto homem de ciências, que resolve ajudar Rosa a realizar o sonho da avó. O
professor teve um casamento terrivelmente malfadado e agora está apaixonado por
Rosa, apesar de já ser um homem com mais de setenta anos de idade.
Quando o professor vê no rosto de Rosa sua
tristeza por não poder levar a avó à Jerusalém, o professor se compadece e
elabora um plano: remodelar a aldeia pertencente a uma rica senhora inglesa de
modo a fazer com que Antônia pense que está realmente na terra santa.
Jesus
Cristo bebia cerveja conta histórias de amor e
muita solidão. Mais solidão do que amor, pois sentimentos bonitos e tudo o que
leva à felicidade dura tanto quando um fugaz momento. A solidão, a tristeza, a
morte: isso é o que dura, que nos acompanha, que penetra em nossos corpos e faz
de nós o que somos. Sentimentos que falam do que é, do que foi e do que será.
Que explicam a essência de tudo que existe e nos fazem refletir sobre o que
somos e para onde vamos.
“Cada
vez que deixamos de ser percebidos, morremos. Quando somos enterrados deixamos
de ser percebidos por toda a gente, mas quando os outros já não olham para nós,
ficamos condenados para um número limitado de pessoas, a uma morte a tudo
idêntica à outra. Nossa morte não acontece quando somos enterrados, acontece
continuamente: os dentes caem, os joelhos solidificam, a pele engelha-se, os
amigos partem. Tudo isso é morte. O momento final é apenas isso, um momento.”
A leitura do livro é deliciosíssima. Os
capítulos são curtos e concisos, apresentando em poucas frases tudo que é
necessário ou importante saber. Os personagens são cativantes e dotados de
idiossincrasias fascinantes. Afonso Cruz destila o melhor da linguagem para
oferecer-nos situações únicas e disparates
que se encaixam tão bem na narrativa que, durante a leitura, nem ao menos sentimos muita estranheza. O bom
humor com que a história é contada é contagiante, mas não deixa de emocionar.
Um humor que sobe e desce como as marés acompanha a leitura de cabo a rabo, bem
como uma fina ironia e uma pungente melancolia, que vai engrossando e ficando
cada vez mais viscosa a cada página, até que o final surpreendente se gruda
como cola em nós e já não há mais como escapar. Contudo, a leitura não se torna
triste ou desagradável. Apenas reflete, com muito bom humor, um pouco da
melancolia de que somos feitos.
Ricardo M. 2016/03/01 (lido em português)

