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domingo, 15 de janeiro de 2017

A Medida do Mundo - Daniel Kehlmann

Gigantes medindo o mundo

A história está repleta de gênios. Gregos, persas, romanos, árabes, portugueses, espanhóis, franceses, alemães, ingleses, holandeses, americanos, russos, japoneses, indianos, chineses, israelenses, australianos e até mesmo brasileiros. Muitos brasileiros, na verdade. O mundo porém está coberto por uma espessa neblina que impede que gênios sejam percebidos assim que surgem. Felizmente homens e mulheres incomuns percebem as incongruências da vida ao seu redor e notam que mal se encaixam na sociedade onde se encontram. Gênios também se cruzam, vez por outra, e deixam para a história as marcas indeléveis de seus encontros.


Era verão de 2009. Filipe, o Kepler, começa: “tô lendo esse livro alemão...” e logo lembrei das leituras de Goethe e Hesse para a faculdade. Maçantes e difíceis de digerir. Sérias num nível mais alto e mais à esquerda – ou direita, não sei bem, mas bem fora da casinha – do que eu julgava ser literatura acadêmica. Os alemães, com isso de fazer tudo perfeito, acabam muitas vezes por tolher a diversão da experiência em detrimento da alta qualidade, seja isso o que for. Mais tarde, lendo O Leitor, do Benhard Schlink, descobriria o prazer de ler obras de autores alemães modernos. Mas ainda não. Não sei que livro é esse e já não gosto dele, pensei.

Dois segundos depois, Filipe prossegue. “É sobre o Humboldt e o Gauss, quando eles se encontraram em Berlim pra uma conferência e, bom, começa bem antes, contando as infâncias e aventuras dos três.”
“Dois. Humboldt e Gauss. São duas pessoas, não?”, confirmei.
“É, sim, mas são dois Humboldt. O Wilhelm e o Alexander. Se bem que o livro centra no Alexander.”

Como bom menino que era, sabia que Gauss era a unidade de densidade de fluxo magnético e só podia ter vindo do nome de alguém. Um enigma a menos. Como bom aluno de letras, sabia muito bem da Universidade Humboldt e das contribuições de Wilhelm von Humboldt no campo da linguística, uma ciência tão misteriosa e incompreensível quanto a astrologia, a informática e a estatística. Alexander von Humboldt, desse eu não tinha ouvido falar.
“O naturalista” completou meu amigo.
“Ah, sim!”, menti.


Bastante excitado pela leitura, Filipe prosseguiu com seu relato. Contou que Humboldt e Bonpland (mais um nome a ser pesquisado) haviam viajado pela américa do sul e central, medindo tudo que estivesse à vista: montes, montanhas, cavernas, rios e parando para recolher amostras de plantas e animais para serem enviados à Europa depois da devida catalogação. Um livro alemão sobre alemães sendo alemães. Pessoas cruzando o atlântico para medir montanhas e recolher galhos de plantas para enviar para o museu mais próximo de casa. Não vou ler. Não vou.

Dias se passaram até que Filipe mencionou o livro novamente. Uma leitura impressionante e altamente divertida, dissera ele. Espere um momento. Diversão? Como pode ter diversão nesse livro? Pedi detalhes, estava ficando curioso.

Foi então que numa longa e divertida conversa Filipe me resumiu o livro até o ponto em que estava lendo. A infância de Gauss e a anedota envolvendo a “descoberta” de sua habilidade matemática. A opulência dos Humboldt e a contrariedade da mãe de Alexander no que dizia respeito ao sonho do filho de viajar e conhecer o mundo. A liberdade que ele sentira quando a mãe opressora morreu. O encontro de Humboldt com o francês Bonpland. A incompatibilidade de seus gênios, a compatibilidade de suas paixões. Gauss viajando de balão e entendendo como medir o universo. Netunismo. Goethe. Kant. Bonpland maravilhado pela nudez das belas índias sul-americanas, Humboldt assexuado. Gauss experimentando curare. Humboldt experimentando curare. Humboldt testando enguias elétricas. Índios. Mosquitos. Múmias. Canibais. Mosquitos. Escravidão. Calor. Suor. Crocodilos. Mosquitos. E ainda faltava um bocado de páginas para o fim da aventura, o que garantia mais algumas descobertas e risadas.

Tá. Admito. Preciso ler esse teu livro. Agora. Já. Ontem.
“Bom, só tem em alemão, por enquanto.”, disse ele.
A tradução para o inglês já havia sido lançada anos antes, mas naqueles tempos comprar um livro em inglês no Brasil não era lá uma coisa muito prática ou barata. A Amazon brasileira ainda não existia e a americana cobrava um fígado saudável de taxa de entrega.

Sabendo que um dia o livro iria cair no meu colo – livros bons sempre, SEMPRE, caem no meu colo – deixei o desapontamento de lado e fui lendo outras coisas. E continuei lendo outras coisas. E continuo lendo outras coisas.

Semanas atrás esbarrei no livro com a tradução em inglês. Comprei e já comecei a ler no mesmo dia.


Basicamente, em 1828 Alexander von Humboldt (1769-1859) convida o “Princeps Mathematicorum” Carl F. Gauss (1777-1855) para que se junte a ele em Berlim, antes da partida de Humboldt rumo à Rússia. O eternamente mal-humorado Gauss deseja ignorar o convite, mas é literalmente mandado à força pela esposa Minna, a quem ele detesta, e parte em direção à capital acompanhado do filho mais novo, Eugen, a quem Gauss também detesta. Quando Gauss chega na mansão de Humboldt, a narrativa passa para o flashback, contando alternadamente, desde a infância, as aventuras de ambos gênios alemães.

É interessante notar vários pequenos detalhes e diferenças entre os dois homens. Gauss é o retrato do gênio da sarjeta: nascido na pobreza, não tinha nenhuma chance de se tornar alguém. Humboldt era o filho mimado de uma família nobre, alguém que jamais precisaria pensar em trabalhar ou se esforçar para engradecer seu nome. Humboldt sonhava em cruzar o planeta inteiro e desvendar os segredos de todos os cantos da terra. Gauss era acometido de terror sempre que precisava se distanciar de sua cidade, algumas vezes até mesmo de dentro de sua casa. Humboldt acreditava que a verdadeira ciência é aquela feita ao ar livre, mundo afora. Gauss cria firmemente que ciência alguma pode nascer de outro modo a não ser de uma mesa, papel, lápis e talvez uma luneta ou outro instrumento.

Poster do Filme

Gauss é um personagem cativante. Seu mau-humor é infeccioso e hilário. Sua ida até Berlim para o encontro com Humboldt se deve principalmente à vontade de ficar longe de sua esposa Minna. Ele sofre e se atormenta pelo fato de que todos os seres humanos pensam mais devagar do que ele, uma diferença de velocidade que é gritante para ele e que faz com que muitas vezes ele se pergunte se todos na terra estão atuando em seus papéis. Ele também percebe com bastante clareza – clareza quase profética – o que ainda falta ser descoberto, melhorado ou criado pelo homem, bem como o que, por anacronismo, está para deixar de existir.

Humboldt é um gênio focado de maneira tão absurda que mesmo os que convivem com ele jamais se acostumam com sua metodologia e eficácia extrema (“Porque você precisa ser assim, tão alemão?”, diz Bonpland. Reclamação compreensível após algumas páginas). Sua determinação inflexível e sua fé inabalável na ciência são mesmo de deixar qualquer um perplexo. Capaz de passar meses contando piolhos de cabeças alheias para criar uma tabela estatística, perder um raríssimo eclipse solar para fazer medições precisas, segurar enguias elétricas por dias e dias para estudar sua natureza. E mais.

Daniel Kehlmann também é um gênio. Só pode.
Sua escrita é, digamos, alemã. No sentido científico da palavra, sua narrativa é muito bem adaptada e combinada com o tema que trata, sendo essencialmente concisa e direta ao ponto. As frases tendem a ser curtas e os parágrafos são episódicos (pelo menos em inglês), o que faz com que cada página seja um deleite, cada capítulo um show de informação, riso, aventura e até pitadas de poesia. Se bem que riso é o que suas páginas mais causam. O humor aqui é seco, contido, discreto. Pena que eu não sou. Me peguei rindo alto, várias vezes, em trens, cafés e no ambiente de trabalho. Humor de bom gosto e que permanece na lembrança. Uma raridade.

Resumindo, este é um romance que trata de fatos históricos e de ciência. Um romance histórico-científico? Quem sabe. Mas seja como for classificado, em “A Medição da terra”, Daniel Kehlmann vai, com toda a certeza, atender às expectativas de fãs de ambos os gêneros literários e agradar aos que preferem outras temáticas.

Ricardo M. 2017/Jan/15 (lido em inglês)


terça-feira, 26 de agosto de 2014

O Tambor - Günter Grass

Oskar Matzerath, Emissário do Caos

No ano de 2009, comemora-se o quinquagésimo aniversário do grande romance de estreia de Günter Grass, "O Tambor". Publicado originalmente em 1959, como primeira parte da "Trilogia de Danzig" (Danziger Trilogie), o livro gozou de enorme repercussão no meio literário da época, angariando de imediato admiradores fervorosos, bem como opositores irados, e transformou-se em um dos mais importantes romances da literatura do pós-guerra.




O narrador é o excêntrico Oskar Matzerath. Em 1952, interno de um hospício e dispondo de todo o tempo do mundo, Oskar decide escrever suas memórias. Assim, pede a seu enfermeiro, Bruno, que lhe traga 500 páginas de papel “virgem”. Com o espesso bloco na mão e a caneta-tinteiro devidamente cheia, Oskar começa sua narrativa, que tem início no cair da tarde de um dia de outubro, em um campo de batatas – data e local da concepção de sua mãe. À parte deste episódio insolente, sua própria história, no entanto, inicia-se apenas mais tarde, em 1924, quando vem ao mundo com os “olhos abertos”, isto é, com o intelecto já plenamente desenvolvido. Uma vez que seu crescimento é interrompido aos 3 anos de idade por conta de um acidente (ainda que ele afirme haver optado parar de crescer, sendo o acidente mera encenação), Oskar permanece eternamente uma criança aos olhos da sociedade e dispõe da “perspectiva de baixo” (Perspektive von unten) para observar o mundo dos adultos. Por ocasião de seu aniversário de 3 anos, recebe de presente um pequeno tambor, o qual virá a ser seu companheiro de toda a vida e de cujo rufar, à guisa das musas, ele se servirá para rememorar e narrar os acontecimentos do passado.

Através dos “olhos claros” do mefistofélico Oskar Matzerath e de seu relato episódico, fragmentado, Grass nos apresenta um panorama histórico que se estende desde o período entre-guerras, passando pela ascensão do nacional-socialismo, até chegar à Alemanha dividida de pós-1945. A partir do microcosmo da pequena burguesia alemã e polonesa de Danzig, o autor expõe com ironia e crueza brutais a mentalidade estreita e alienada do povo alemão do início do século: o descaso, a ingenuidade e, mais tarde, o fervor cego com que este abraçou o nazismo e do qual depois se viu cativo.

Tachado na época de sua publicação de sacrílego, obsceno, e mesmo pornográfico, "O Tambor" é considerado hoje um marco na história da literatura alemã. Servindo-se dos moldes do romance de formação – gênero este tipicamente alemão, que tem no "Wilhelm Meister" de Goethe seu canônico exemplar –, Grass desconstrói, subverte, deturpa, numa palavra: reinventa o gênero, ampliando os horizontes literários e estéticos da época de maneira inaudita. Ao contrário de Goethe, seu herói não se desenvolve ou amadurece ao longo de sua jornada. Oskar já nasce pronto, não muda, não cresce, não melhora, de modo que sua história serve apenas para confirmar aquilo que ele sempre soube ser: o dos “olhos abertos”, o provocador, observador inescrupuloso da improbidade humana, força demoníaca a desagregar tudo o que toca. Para Oskar, nada é sagrado ou digno de reverência: zomba da Igreja, desafia a lei, ri-se da moral. Oskar é a aberração que se recusa a compactuar com a sociedade, mantendo-se adulto em corpo infante, a fim de minar-lhe as bases; que despreza a humanidade e o expressa ao fazer de si próprio uma caricatura grotesca, ao mesmo tempo amada e odiada – é o espírito da contradição, o anão maldito cujo canto estilhaça vidraças e cujo tambor escarnece da própria existência.

Cinquenta anos após sua publicação, "O Tambor" de Günter Grass, com seu estilo barroco e sua profunda reflexão histórica, conduzida a partir de uma perspectiva rasteira permeada de cinismo, mostra-se semelhante a seu anti-herói: parece recusar-se a envelhecer. Incansável, Oskar segue rufando seu tambor, instilando o caos por suas páginas e lembrando-nos de que seu canto macabro ainda se mantém assustadoramente moderno.

Filipe Kepler 21/06/2011 (lido em português e alemão)