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quinta-feira, 9 de julho de 2015

Neve de Primavera - Yukio Mishima

Neve de Primavera: pintando contrastes

Em 25 de novembro de 1970, o Japão foi surpreendido pela morte de um de seus maiores ícones literários do pós-guerra, o escritor Yukio Mishima. Aos 45 anos de idade, Mishima cometeu seppuku (suicídio ritual) logo após a tentativa frustrada de incitar um golpe de Estado que teria por objetivo restaurar o poder ao imperador e impor a lei marcial. Segundo Mishima, esse seria o primeiro passo para reverter a trajetória de decadência moral e política do Japão desmilitarizado e ocidentalizado de pós-1945. O suicídio transformado em espetáculo público, a polêmica das motivações políticas de extrema direita do autor, bem como o caráter ritualístico de sua morte, estariam fadados a alimentar o mito em torno do nome de Mishima e a tornar-se motivo de elucubração da crítica por anos a vir. O fim que o escritor escolhera para a própria vida causou tamanha repercussão, que acabou por ofuscar a publicação do último romance a concluir sua ambiciosa obra prima, o panorama do Japão do século XX: O Mar da Fertilidade (1969-1971).




Mishima vinha trabalhando na obra desde 1964 e, até a data de sua morte, havia publicado já três romances, restando-lhe apenas a conclusão do último livro para encerrar o círculo. Mishima já havia inferido que poderia morrer depois que terminasse O Mar da Fertilidade, visto que não acreditava poder escrever nada superior; porém ninguém imaginaria que ele seguiria suas palavras à risca. Poucos meses antes de suicidar-se em novembro de 1970, Mishima terminara o manuscrito do obscuro romance A Queda do Anjo (1971), que viria a ser publicado no ano seguinte, encerrando assim a tetralogia.

Neve de Primavera (1969) é o primeiro romance da saga, publicado primeiramente em folhetim, entre os anos de 1965-67, e em forma de livro, em 1969. A obra narra a trágica história de amor entre Kiyoaki Matsugae e Satoko Ayakura e, paralelamente, explora os conflitos sócio-culturais do Japão em decorrência da onda de ocidentalização no início do século XX.

A ação se passa durante os primeiros anos do Período Taishô (1912-1926), época marcada pela decadência da antiga aristocracia e a ascenção dos partidos democráticos. Numa tarde de outubro de 1912, Kiyoaki Matsugae e seu amigo, Shigekuni Honda, conversam à beira de um riacho na suntuosa propriedade dos Matsugae, quando presenciam a chegada da hóspede Satoko Ayakura, a belíssima filha de uma família da alta aristocracia, acompanhada de sua tia-avó, a Abadessa do mosteiro de Gesshu.

Kiyoaki e Satoko, apesar de se conhecerem desde tenra infância, vivem numa relação de pretensa indiferença. Kiyoaki sabe do amor que ela lhe devota, porém ignora suas tímidas tentativas de aproximação e sente certo prazer narcisístico em menosprezar-lhe os sentimentos. Somente ao receber notícias do noivado entre Satoko e o príncipe Harunori e vislumbrar pela primeira vez a possibilidade real de perdê-la para sempre, Kiyoaki por fim toma consciência de seu amor por Satoko e decide lutar para reconquistá-la. Em segredo, os dois iniciam uma relação ilícita ao longo da qual hão de vivenciar o desabrochar ardoroso da paixão, porém também assistir às flores de seu sonhos morrer sob o jugo das convenções e normas sociais da época.




O caráter trágico que permeia Neve de Primavera é notório. A triste história de amor de Mishima - as tribulações de dois jovens apaixonados que lutam para ficar juntos, a despeito de todas as dificuldades - faz-nos lembrar eventualmente de Shakespeare. No entanto, ao contrário de Romeu e Julieta, no qual o ódio entre as duas famílias é o único fator a barrar o amor dos protagonistas, as causas para a tragédia em Neve de Primavera  parecem ser mais profundas. No início do romance, não só as duas famílias são a favor da união de Kiyoaki e Satoko, como inclusive encorajam a aproximação dos dois. A bem da verdade, a família de Satoko acabou por noivá-la com o príncipe Harunori tão-somente pelo fato de Kiyoaki nunca ter tomado a iniciativa em pedir a sua mão e por mostrar indiferença à possibilidade de ela casar-se com outro. Ao contrário da obra Shakespeariana, os próprios protagonistas parecem, inadvertidamente, impor barreiras à própria perspectiva de felicidade.

Da mesma forma, diversas situações de conflito entre os dois também se dão pelo fato de Kiyoaki e Satoko possuírem diferenças irreconciliáveis, que contribuem em boa parte para a tragicidade de sua história: Satoko é honesta quanto a seus sentimentos e tenta demonstrá-los, apesar de sua timidez; Kiyoaki dissimula os próprios sentimentos e age de maneira a encobri-los; Satoko é magnânima e paciente; Kiyoaki é caprichoso e intempestivo; Satoko acata, submissa, a decisão da família de casá-la com um homem a quem mal conhece; Kiyoaki rebela-se contra o pai, quando este o proíbe de interferir no noivado de Satoko; quando Satoko toma passos para se aproximar de Kiyoaki, este age de maneira a afastá-la; quando Kiyoaki tenta insistentemente encontrar-se com Satoko, ela lhe barra o caminho atrás de uma muralha de silêncio. Um parece ser o exato oposto do outro e, não obstante suas diferenças, ambos perseveram em sua tentativa inglória de ficar juntos.

A insistência de Mishima em aproximar duas personalidades opostas apenas para se deparar com a aparente impossibilidade de conciliação, não se dá ao acaso. A noção de conflito é pivotal no romance e reflete-se não só no relacionamento conturbado de Kiyoaki e Satoko, como também na relação ambivalente, na época, entre o Japão e o Ocidente. A fim de manter-se como uma potência econômica relevante no cenário mundial, o Japão se viu obrigado a render-se à tecnologia ocidental. Tal avanço tecnológico, no entanto, veio com um preço: ao abrir as portas ao Ocidente, o Japão também entrou inevitavelmente em contato com a cultura ocidental, o que resultou em mudanças na comida, indumentária, nos costumes e, em última instância, na cultura do país. Durante boa parte do século XX, o país lutou com as implicações sociais, políticas e culturais que daí advieram.




Como outros pensadores do século XX, Mishima preocupava-se com a situação da nação e ponderava sobre as conseqüências e o impacto que uma ocidentalização descontrolada teria sobre a identidade e tradição japonesas. Neve de primavera é o cavalete sobre o qual o escritor  escolheu pintar sua visão sobre o dualismo irreconciliável que permeou a sociedade japonesa do último século.

Tal dualismo se reflete, sobretudo, nas personagens que permeiam o romance. À parte das personalidades conflitantes de Kiyoaki e Satoko referidas acima, outras personagens nos dão mostras de viver divididos entre leste e oeste. O exemplo mais claro desse dualismo é o Marquês Matsugae, pai de Kiyoaki. Apesar de descender de uma antiga e estóica família de linhagem samuraica, o marquês fizera fortuna recentemente e adotara por completo o estilo de vida ocidental: veste-se sempre à moda européia, é conhecedor de vinhos e faz questão de que todas as refeições em sua casa sigam os modelos europeus de etiqueta. Todavia, a mansão principal de sua propriedade - na qual mora, sozinha, a avó de Kiyoaki com uma criada - é de estilo japonês. O marquês poderia tê-la reformado para seguir os padrões ocidentais; contudo, por reverência à tradição e respeito a sua mãe, Matsugae optou por manter a antiga casa e construir uma segunda casa no estilo ocidental, na qual mora com a família e o resto da criadagem. Da mesma forma, o enorme jardim que circunda a propriedade, apesar de ostensivamente ocidental, já foi palco de diversas representações do teatro japonês, bem como de uma apresentação de sumô por ocasião da visita do Imperador Meiji à casa dos Matsugae. O marquês orgulha-se por ser um dos poucos a ter recebido a família imperial em sua casa e ter-lhes oferecido uma recepção tradicional à altura. Percebe-se, portanto, que, a despeito de sua presumida "ocidentalização", o marquês mantém não só uma casa japonesa, como também valores genuinamente japoneses: é como se ele fosse ocidental por fora, porém tipicamente japonês por dentro.

Exemplo inverso de tal dualismo temos na casa de Shigekuni Honda, amigo de Kiyoaki. O austero juiz Honda e sua diligente esposa mantêm sua casa em tradicional estilo japonês, no que diz respeito a indumentária, refeições e, de maneira geral, móveis e decoração; no entanto o dia-a-dia da casa é de todo ocidental. O pai de Honda, quando jovem, passara alguns anos estudando Direito na Alemanha e compartilha da predileção alemã pela lógica e a ordem. Por conseguinte, mantém sua casa num regime de severidade e retidão, onde tudo tem de estar na mais perfeita ordem: todos os objetos da casa não só têm uma função, como atendem a um específico padrão de excelência. O mesmo se espera da criadagem: boatos, fofocas e quaisquer demonstrações de frivolidade são silenciados por um mero olhar do juiz. Ao contrário dos Matsugae, a aparência na casa de Honda é japonesa, enquanto o "interior" é notadamente ocidental.

Tal qual a neve tardia que se mistura com as flores a desabrochar na nova estação, Yukio Mishima nos oferece uma obra que logra unir o cavalete  narrativo do realismo inglês com as cores do lirismo japonês. O resultado é uma magnífica pintura de contrastes, que nos impressiona por sua observação histórica e nos desola com sua trágica história de amor. Finda a leitura, a sensação que nos fica é a de um estranho misto de enlevo e tristeza. Assim como o amor de Kiyoaki e Satoko, Neve de Primavera possui aquela espécie de beleza trágica, tão típica em Yukio Mishima -- a beleza de uma flor de cerejeira, que, cheia de cor, enleva-nos o espírito, enquanto despetala-se, devagar, diante de nossos olhos.

Filipe Kepler, 07/07/2015 (lido em inglês)





sexta-feira, 24 de outubro de 2014

O Incolor Tazaki Tsukuru e seus anos de Peregrinação - Haruki Murakami

Tazaki Tsukuru: Murakami e o mito do eterno retorno

Lembro que por volta do ano 2000, quando li Caçando Carneiros, senti, talvez pela primeira vez, que havia encontrado um autor para seguir pelo resto da vida. Toda aquela espiral de emoção e aventura através da qual o narrador me guiara fizera com que eu lesse e relesse o livro algumas vezes, sempre com deleite. Vieram então os comentários da professora de literatura japonesa, catedrática especialista na área, dizendo que aquele, sim, era o escritor da modernidade, a voz do Japão dos dias de hoje.




Com inexplicável entusiasmo li as obras de Murakami, uma após a outra, sempre tentando ler no original, porém alternando entre o inglês e o português também, por causa da especialização em línguas e uma certa curiosidade inerente ao ato tradutório. Murakami, com seu vocabulário rico e muito bem utilizado, sempre me ensinou, a cada página, alguma palavra nova ou expressão até então inédita. Até certo ponto, ele foi tão meu professor quanto alguns dos meus reais mestres.




A passagem dos anos me mostrou que mesmo autores considerados geniais por muitos cansam e, cansando, põe em jogo sua capacidade de produção artística. Dentro de mim Caçando Carneiros era um A+, Hear the Song of the Wind era um A, Minha Querida Sputnik era um A-, Dance, Dance, Dance foi um um B-, Pinball de 1973 foi um merecido C-, e assim por diante, as obras iam ganhando notas menores, e menores, e menores...

E eis que chegamos ao mais novo produto da mente Murakamiana.




Eu juro que queria escrever algo legal sobre o livro de Murakami.
Queria dizer que a história é fascinante e muito bem contada, que os personagens são carismáticos e atraentes ao ponto de chorarmos quando o livro chega ao fim, que suas mágoas e tristezas nos atormentam como se estivessem acontecendo a nós mesmos e que as descrições de locais são encantadoras e que a ação toda é de entusiasmar o mais aborrecido leitor.

Shikisai wo motanai Tazaki Tsuku to kare no junrei no toshi (O desprovido de Cor Tazaki Tsukuru e seus anos de Peregrinação, em tradução livre), é o título original, sendo que o inglês é Colorless Tsukuru Tazaki and His Years of Pilgrimage e a tradução para Portugal é A Peregrinação do Rapaz sem Cor

A obra gira em torno de Tazaki Tsukuru, um homem de 36 anos que não sabe fazer nada além de choramingar e se auto-depreciar. Para ser um pouco mais específico, o livro trata da história de um homem tipicamente Murakamiesco (perdido, solitário e impotente) que leva um fora dos melhores amigos e, apenas 16 anos mais tarde, resolve saber o motivo, mas não antes de ser obrigado a isso pela namorada. Já ouvi falar de meninos de 12 anos com mais garra e capacidade de vencer obstáculos do que os protagonistas de Murakami.

Qualquer pessoa que já leu um Dostoiévski qualquer sabe como as personagens femininas do semideus-com-uma-pena/escritor russo são dotadas de uma capacidade de raciocínio lógico e coragem sem par, enquanto que os homens são personagens atormentados e bastante impotentes. Murakami, sua cara metade, descreve personagens femininas dominadoras e sem a menor lógica, enquanto que seus personagens masculinos nem ao menos são dignos de pena, tal é sua falta de capacidade e de hombridade.

Vai ficando mais claro, com o tempo e número de obras lidas, que Haruki Murakami sabe apenas escrever um tipo de história, o que não é ruim, uma vez que muitos autores pertencem à mesma categoria. Todos os personagens masculinos centrais dele são a mesma pessoa – um homem isolado, que faz pouco caso de si mesmo, que atrai mulheres que por algum motivo o acham especial e que, assim que entram em sua vida, passam a coordenar seu destino. A dinâmica é sempre a mesma, os temas são constantes imutáveis: estações de trem, observar pessoas em locais públicos, telefonemas inesperados, a melancolia da cidade grande, Cutty Sark, realidade alternativa, ereções em locais impróprios, sexo ruim ou não-sexo, raciocínio lógico inconcebível.

Murakami vem usando o mesmo roteiro a tanto tempo que o leitor mais cuidadoso já sabe quando há uma deixa para falar de sexo, fazer o comentário ou ter o pensamento sobre a aparência de uma certa mulher ou começar a cozinhar. É como ler o script de um filme assitido muitas vezes. E o que mais decepciona é notar que a repetição não se dá apenas de um livro para outro, mas sim, dentro da mesma obra também. “Eu não tenho cor, sou um inútil”, diz Tsukuru. Puxa, que pena eu fico desse cara. “Eu não tenho cor, sou um inútil.” Pois é, que chato isso. “Eu não tenho cor, sou um inútil.” Bom, sempre tem uma saída. “Eu não tenho cor, sou um inútil.” Já tentou parar de choramingar e fazer algo? E isso se repete até o final, um carrossel de 370 páginas de pura redundância. Tirando-se o excedente de repetições, um ou dois amigos inúteis, a descrição desnecessária de todo e qualquer passo dado pelo protagonista, estirpando o drama com a namorada e dando a Tsukuru as bolas que todo homem deveria ter, poderíamos ter uma bela obra, talvez um conto bem acabado de cerca de 100 páginas.

Um fato sobre a piedade que sentimos e que normalmente não é descrito em lugar algum diz respeito à relação entre esforço e pena. Tendemos a sentir compaixão por personagens que lutam por seus sonhos, ainda que acabem falhando em atingir o mínimo necessário para que se possa dizer que valeu a pena. No caso de Tsukuru, bem, ele não fez nada. E não apenas na parte do livro em que ele é retratado como adulto. Tsukuru não fez nada durante uma vida inteira. Estudou para o vestibular como nunca antes? Puxa. Que herói. Atravessou o planeta e foi parar no meio da Finlândia para resolver um pseudo-mistério? Sim! Mas não antes de ter sido devidamente coagido pela namorada que o traiu com um velho.

A palavra Tsukuru na língua japonesa significa “Construir, Fazer, Criar, Montar”. O que ele cria? Nada. Não cria amigos, não cria romances, não cria conexões, nem ao menos cria estações de trem, seu sonho da infância e atual emprego.

Críticas à versão americana do livro incluem adjetivos como “onírico”, “poético” e “metafórico”. Onírico significa dos sonhos, proveniente ou da qualidade dos sonhos. Tsukuru passa boa parte da história sonhando estar na cama com duas meninas de 16 anos, logo, sim, é onírico. Poético talvez se refira ao uso da linguagem de Murakami. Já disse antes e repito aqui que a linguagem que o autor usa em seus livros é altamente refinada e de muito bom gosto, mesmo que ela muitas vezes esteja à serviço de descrições asquerosas. Metáfora é algo que está nos olhos de quem lê, não se discute. Se algum crítico renomado amanhã disser que sexo com duas meninas de 16 anos é uma metáfora para o desejo de reecontrar o tempo deixado para trás e que Murakami é o novo Proust, ninguém vai poder dizer que isso não procede.

Críticas japonesas falam do livro como se se tratasse da nova bíblia, escrita pelo próprio Jesus, mas é por isso mesmo que ninguém conhece críticos japoneses fora da Terra do Sol Nascente. Em compensação, a melhor crítica nipônica até o momento é – pasmem – um comentário recheado de humor na Amazon japonesa. Trata-se de uma review escrita por um leitor que estranhou por completo o personagem e seu percurso nas linhas do romance. Se um japonês achou ridículo – e outros 25 mil endossaram a escolha de palavras – é prova de que a estranheza não está nos olhos ocidentais meus.

Link: (Em japonês) “O romance da desilusão do cara solitário que fede a sebo”, em tradução livre.

No gênero mágico, área que já foi o forte do autor, vemos distorções de lógica que desafiam a própria realidade mágica. Um homem que alega que tem apenas um mês de vida, já que “uma pessoa comum” lhe disse isso. Ele pode viver mais, desde que encontre alguém disposto a trocar de lugar com ele e morrer em seu lugar (basta dizer que quer fazer a troca). Entretanto, para mostrar a existência de balanço entre pontos positivos e negativos, o homem possui o poder de ver a cor, uma espécie de aura, das pessoas. Para que serve esse poder, ninguém sabe.

Como não poderia deixar de aparecer, temos aqui também a menção às realidades paralelas. Em 1Q84, as realidades paralelas eram importantes para a trama, mas, ao que tudo indica, Murakami gostou do truque e resolveu reutilizar aqui, mico de imitação de si mesmo, ainda que sem a menor migalha de necessidade. Basta que algo aconteça na vida de Tsukuru para que ele pense no motivo lógico para aquilo: “em algum ponto do tempo, as realidades se bifurcaram e eu acabei vindo parar no lugar errado”. Se for assim, então, Tsukuru é completamente pancada da cabeça. Ou Murakami.

A segunda metade do livro apresenta uma mudança tão marcante de estilo que chega mesmo a dar a impressão de que Murakami pediu para algum estudante de letras continuar o manuscrito enquanto ele ia até Okinawa se bronzear. É uma ofensa ao publico leitor ter que ler as mesmas frases se repetindo a cada página, ditas ou pensadas por um protagonista incapaz de fazer escolhas, tomar decisões, viver a própria vida, escolher o próprio rumo. Em alguns momentos, o distanciamento leitor-protagonista se torna tão grande que começamos mesmo a torcer para que tudo dê errado de uma vez, para que Tsukuru dê logo um fim à própria desgraça.

É realmente uma pena que tudo acabe assim. As primeiras 100 páginas do livro são interessantes e cheias de possibilidades criativas e várias pequenas deixas que poderiam ser utilizadas para criar uma trama intricada que envolvesse o leitor num ambiente de fascínio e prazer.

          No final, Murakami está sempre voltando ao seus mesmos personagens insossos e suas histórias estapafúrdias de sempre e eu aos seus livros. É um eterno retorno, e parece que nem ele e nem eu estamos ainda cansados do percurso. 

Ricardo Machado 21/09/2014 - 23/10/2014 (lido em japonês e inglês)

sábado, 4 de outubro de 2014

Kafka à Beira-mar - Haruki Murakami

The boy named Crow can't fly

Este é um daqueles livros em que um sofisma se faz necessário para explicá-lo: o problema deste romance é o autor. Sim, o livro só não é bom por causa de Haruki Murakami.




Em "Kafka on the Shore", o autor japonês de maior sucesso dos últimos anos nos apresenta a odisséia do garoto de 15 anos Kafka Tamura, que foge de casa a fim de escapar da profecia edípica de seu pai e reencontrar sua mãe e irmã, há muito desaparecidas. Assim como Kafka, também parte em viagem o bom e simples Nakata, um idoso que, após um incidente durante a Segunda Guerra Mundial, desaprendeu a ler e a compreender o mundo dos homens, porém desenvolveu a habilidade de conversar com gatos e de prever o clima. Ao longo da obra, acompanhamos como os caminhos desses dois personagens convergem inexoravelmente para um mesmo ponto e como Kafka e Nakata lutam para descobrir a missão que lhes coube pelo Destino.

Murakami constrói caminhos tortuosos para um enredo com matizes surrealistas e especulações metafísicas, tais como sobreposição de realidades, eventos acontecendo fora do tempo, bem como o caráter onírico da existência. No entanto, para um projeto tão ousado falta-lhe técnica – a bem da verdade, menos técnica do que bom senso. O romance tem, de fato, deficiências: é demasiado descritivo, algumas das elucubrações metafísicas perdem-se a meio caminho e o ritmo do romance oscila muito, alternando longos e cansativos trechos com outros extremamente dinâmicos e instigantes. Contudo, tais problemas técnicos não chegam a arruinar o todo, e o romance, de uma maneira geral, prende o leitor com sua mistura de realismo e sonho.

O real estigma da obra reside no mau gosto do autor. Em primeiro lugar, na constante referência de Murakami a produtos, grifes e artistas do Ocidente, o que soa antinatural e absolutamente kitsch, ainda que possa parecer exótico e aprazer ao público japonês; em segundo, em sua insistência num erotismo trivial e grosseiro. O livro é permeado de cenas descabidas de sexo que, salvo raras exceções, pouco acrescentam à história. Tais episódios eróticos são mal executados e dificilmente se encaixam nos contextos em que aparecem. Por sua recorrência ao longo da obra, passam não a chocar o leitor (talvez sua intenção primeira), mas sim a irritá-lo por sua inverossimilhança, servindo apenas para desviá-lo do enredo propriamente dito. Perturbadora também é a obsessão fálica do autor, que parece sofrer de algum complexo, possivelmente o de Portnoy...

Ao fim e ao cabo, a impressão final que a obra nos deixa é a do que poderia ter sido, e não foi. Uma pena, pois "Kafka on the Shore" tem grandes momentos. Porém, para um livro de 500 páginas, os grandes momentos são curtos e por demais espaçados. Talvez se Murakami passasse menos tempo querendo ser Kafka, García Márquez e Philip Roth, o romance voasse mais alto e a obra fizesse jus ao sucesso do autor.


Filipe Kepler 01/9/2011 (lido em inglês)

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Caçando Carneiros - Haruki Murakami

Carneiros, consumismo e solidão

Caçando Carneiros foi lançado originalmente no Japão em 1982 e foi o romance do escritor Haruki Murakami que abriu os olhos do público para o início de algo grande. Cinco anos mais tarde, com o lançamento de “Norwegian Wood”, teríamos o que foi chamado Fenômeno Murakami.



 

O livro, traduzido para o português pela grande Leiko Gotoda, é narrado em primeira pessoa por um jovem publicitário – cujo nome jamais ficamos sabendo – de carreira enfadonha, mas que, como todo e qualquer japonês adulto, precisa suar muito a sua camiseta no emprego. Ele tem cerca de 30 anos, vive uma vida pacata e trabalha em Tóquio com um sócio, um velho amigo bêbado inveterado. Convive com sua ex-mulher e uns poucos amigos. Tudo aparentemente muito comum, até que sua situação muda: ele recebe uma carta e algumas fotos. E sua vida nunca mais foi a mesma.




Mais tarde, um homem misterioso visita o protagonista em seu escritório e, após uma longa conversa, o incumbe com a extraordinária tarefa de sair à caça de um carneiro com uma estrela nas costas, numa cidadezinha provinciana da distante região de Hokkaido, ao norte do Japão. O homem compartilha o fato de que o tal carneiro não é um animal comum, longe disso. Como se não bastasse, o misterioso visitante diz ao protagonista que, se ele não encontrar o carneiro dentro de um mês, a vida do jovem será arruinada. E assim, sem entender absolutamente nada sobre o que está acontecendo, e nem ao menos compreendendo porque fora escolhido, ele se lança em uma busca fantástica, atravessando o Japão para encontrar o único carneiro que pode trazer novamente algum sentido ao seu cotidiano. No caminho, ele acaba encontrando personagens peculiares: uma modelo de orelhas sedutoras, um grupo político com um chefe enigmático e, bem, um homem-carneiro. Nenhum dos personagens do romance possui nome, sequer o gato de estimação. Nessa jornada, nosso narrador se verá no lugar de um excêntrico detetive que, ao mesmo tempo em que recolhe pistas e tenta esclarecer enigmas, descobre um pouco mais sobre si mesmo.



  
Impressões sobre a leitura.
As primeiras páginas são carregadas de uma lentidão por vezes penosa. Nada acontece, nada dá a entender que algo vá um dia acontecer. São parágrafos e mais parágrafos de descrições, das mais variadas. Daí então você percebe que ninguém tem nome. Absolutamente ninguém. A trama começa a se desenrolar e você vê que marcas de produtos tem proeminência sobre nomes e sentimentos humanos. Mais algumas descrições. Nada faz sentido. Até que então tudo faz sentido. As primeiras páginas entediantes estavam introduzindo o ritmo do romance, preparando o leitor para o mundo que se descortina aos seus olhos: um mundo de ações calculadas, materialismo, consumismo, irracionalidade, fantasia e doses cavalares de tristeza e solidão. É um romance com cunho detetivesco e pós-moderno no qual sonhos, devaneios e a mais fértil imaginação tresloucada são mais cruciais do que provas ou pistas.
A narrativa possui um tom de mitologia e de peso histórico bastante atraentes. Menciona Gengis Khan e eventos de suma importância na história moderna, tudo imerso em mistério. O autor aqui sabe como criar personagens carismáticos com os quais acabamos por nos apegar. Ele também traça habilmente a personalidade de cada um deles e delineia magistralmente o rumo que cada um deles tem a tomar, controlando seus destinos e ajudando-os a redescobrir suas vidas.
Tal qual Kafka, Murakami, aqui, demonstra possuir a capacidade de unir o real e o inverossímil de maneira atraente e despertando a curiosidade do leitor. Ele põe à prova seu estilo único de contar histórias recheadas de absurdos visíveis e encontra o merecido sucesso pelo seu bem escrever.


Um dos grandes diferenciais da obra de Murakami com relação aos seus compatriotas é o fato de que seus personagens, apesar de imersos até o pescoço num mundo de fantasia, vivem no Japão uma realidade quase igual à nossa ou de pessoas de muitos outros países. Dão o melhor de si mesmos por suas carreiras, bebem demais, vagam por casamentos desfeitos, vivem vidas tortuosas. E tudo isso e muito mais sem um único quimono à vista, um único samurai a ser mencionado ou uma gueixa sequer. Trata-se do que alguns já chamaram de ocidentalização, o que já foi chamado de globalização e que, hoje em dia, é nada mais nada menos do que a unificação cultural através da influência dos meios de comunicação em massa, tema amplamente trabalhado em seus livros, mas que ainda é tratado como assunto à parte pela maioria dos autores nipônicos e principalmente pelos críticos literários daquele país.

Murakami é um autor que sabe muito bem como contar histórias imbuídas com o extraordinário. Mesclando situações banais com fatos inexplicáveis, ele guia o leitor por suas narrativas oníricas, num mergulho em seu universo único.



Ricardo Machado 08/09/2014 (lido em Português e Japonês)