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quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

O Som e a Fúria - William Faulkner

Tempestade Narrativa

Quando o escritor norte-americano William Faulkner publicou seu quarto romance, "O Som e a Fúria", em 1929, a recepção da obra não foi o que se pode chamar de "um sucesso de vendas". Somente em 1931, com a publicação de "Santuário" - obra com enredo polêmico e um tanto sensacionalista que o autor alega ter escrito apenas por dinheiro - foi que Faulkner ganhou notoriedade e, consequentemente, atraiu o interesse do público e da crítica para seu esquecido, e magnífico, romance de dois anos atrás. Desde então, o êxito de "O Som e a Fúria" tornou-se indiscutível, chegando ao patamar de ser considerado, com unanimidade, um dos melhores romances de língua inglesa do século XX.


 

















O romance narra a história dos Compson, antiga família pertencente à aristocracia rural da cidade de Jefferson, no Mississipi. Abrangendo um período de aproximadamente trinta anos, a obra nos descreve a trajetória de decadência e ruína que levou à quase total dissolução da família e, inclusive, à morte de alguns de seus membros.

Seguindo nos moldes dos romances experimentalistas de escritores do início do século XX como Virgínia Woolf e James Joyce, Faulkner faz uso de diversos recursos narrativos, tais como fluxo de consciência, simbologia, alternância de narradores, sinestesia e não-linearidade narrativa, a fim de nos transmitir a saga dos Compson não pelos fatos, mas sim pelas emoções transmitidas pelos personagens. Como já induz o título Shakespeariano, "O Som e a Fúria" não se trata de um romance bucólico  que se passa no Sul dos Estados Unidos no início do século XX; mas sim de um tour de force desenfreado de eventos, sons, imagens e paixões cuja fúria consume e, por fim, destrói  toda uma família. Faulkner faz uso de recursos narrativos não convencionais a fim de enfatizar, e mesmo exacerbar, o aspecto humano da tragédia, em detrimento da sucessão lógica dos acontecimentos. Pois, os acontecimentos em si não têm importância; importante são antes os efeitos e reverberações que eles produzem nos personagens e, consequentemente, nas tempestades que estes últimos vêm a desencadear.

Atentando para a estrutura do romance, verifica-se que este se divide em quatro grandes capítulos, que se passam em diferentes dias e são narrados, exceto pelo último, por cada um dos representantes da última geração dos Compson: Benjamin (em 7 de Abril de 1928), Quentin (em 2 de Junho de 1920) e Jason (em 6 de Abril de 1928). O último capítulo é narrado por um narrador onisciente (em 8 de Abril de 1928) e descreve os eventos posteriores àqueles narrados no primeiro capítulo.


Contudo, é digno de nota atentar para o fato de que, a despeito dos títulos, cada capítulo em verdade ultrapassa o escopo temporal de um dia. Pensamentos, recordações, diálogos ou mesmo impressões do narrador se interligam aos eventos do presente, de modo que, em vez dos acontecimentos de um dia único dia, deparamo-nos antes com eventos, imagens ou até sons de diferentes períodos no tempo. Tais "saltos" temporais e contextuais são, por vezes, marcados por grifos em itálico ou separados por parágrafos. Porém, podem também surgir sem nenhuma marca formal, no meio de um diálogo ou mesmo de uma frase. Não há um padrão fixo em sua representação, de modo que cabe ao leitor manter-se alerta, a fim de orientar-se ao mergulhar neste imbricamento textual. Outro fator interessante é o fato de que cada capítulo possui um narrador-personagem diferente. Portanto, a forma e estilo narrativos também diferem sensivelmente de um capítulo para o outro, o que torna a leitura mais diversificada e, por conseguinte, mais desafiadora.

Possivelmente, o exemplo mais notório desta técnica narrativa tão particular - hoje já indissociável do nome do autor - se dá na forma do primeiro capítulo do romance, "7 de Abril de 1928". O capítulo é narrado por Benjamin (referido geralmente apenas por "Benjy"), quarto filho do casal Compson e que sofre de algum tipo de doença mental não especificada no romance. Uma vez que Benjamin é incapaz de pensar de maneira lógica, ele apreende a realidade não pelo raciocínio, mas pelos sentidos. Cheiros, sons e cores despertam diferentes associações e lembranças em sua mente, de modo que a narrativa se mostra altamente sinestésica e permeada de digressões.
Nesta maneira revolucionária de abordar o aspecto narrativo é que jaz um dos aspectos mais impressionantes do romance: Faulkner logra reconstruir e descrever o pensamento através da linguagem. Através da narrativa de Benjamin - bem como da dos outros personagens - somos capazes de entender como sua mente funciona e ver o mundo por seus olhos. É-nos revelado a maneira única como Benjamin percebe seus familiares e como ele atribui sentido aos eventos que se descortinam ao seu redor.

        Apesar de tratar-se de uma obra hoje canônica, não é difícil imaginar - mesmo para mim, apreciador convicto e imoderado de Faulkner - que "O Som e a Fúria" possa ter sido menosprezado no início. Os motivos de seu inicial fracasso comercial são de tal modo evidentes para qualquer pessoa com um mínimo de conhecimento do universo faulkneriano, que me abstenho de perder linhas a enumerá-los. Suponho que o dissabor que muitos tiveram com a inacessibilidade de seu grande romance se deva ao fato de não entenderem que Faulkner é um escritor fiel à sua visão; que não tem o mínimo interesse em ajudar o leitor; que não tem paciência de segurá-lo pela mão e oferecer-lhe coordenadas, a fim de que este encontre facilmente o sentido e a saída de seus labirintos literários. Não há atalhos em Faulkner. Sua obra nos frustra, confunde e, em última instância, castiga. Sim, Faulkner nos pune por conta da noção superficial e estreita que temos do que venha a ser o ato de ler. Por conta disso, ele figura como um dos grandes escritores cujos romances nos obrigam a amadurecer e educarmo-nos como leitores, a fim de que possamos desfrutar plenamente da inesquecível experiência artística que eles nos oferecem. E no caso de "O Som e a Fúria", a recompensa absolutamente faz jus aos trabalhos do caminho.

Filipe Kepler 13/01/2015 (lido em português e inglês)

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

A Explicação dos Pássaros - António Lobo Antunes

Explica-me os pássaros, pai.

Rui encontra-se numa encruzilhada. Despedaçado desde que sua primeira mulher o abandonou e oprimido pelo desprezo silencioso que o pai e a família lhe devotam por conta do modo de vida que escolheu para si, este professor universitário vê-se estagnado, vítima da frustração resignada e de um surdo desespero, reprimidos por anos sem conta e a tornarem-se mais e mais insuportáveis.




            Assim, após visitar a mãe a morrer no hospital, Rui decide-se por levar sua segunda mulher, Marília, para uma viagem de quatro dias em Aveiro, onde pretende terminar a relação, na esperança de que, liberto de um relacionamento que julga ruim, possa enfim retomar o próprio rumo e dar um novo curso para sua vida. Contudo, haverá ainda forças para tanto? Será possível, depois de tanto tempo, levantar-se do chão e recomeçar?

À semelhança de suas obras anteriores, o autor divide o romance em capítulos cronológicos (os quatro dias passados em Aveiro), que, no entanto, não se limitam ao escopo temporal de seus títulos. Por conseguinte, o leitor se depara a cada página – às vezes a cada parágrafo – com histórias concomitantes: ao relato do presente, em Aveiro, intercalam-se flashbacks de seu passado com a primeira mulher, as antigas querelas familiares, o divórcio, o início de seu relacionamento com Marília, bem como eventos de um passado ainda mais remoto, origem de suas alegrias e futuras dores: a infância e, sobretudo, a tarde idílica passada na quinta, com o pai a explicar-lhe os pássaros. Além de seu passado e presente, a partir de determinado ponto é-nos dado a conhecer também o futuro de Rui, isto é, os eventos ulteriores à viagem a Aveiro. Uma vez que tal emaranhado narrativo é magistralmente arranjado pelo autor, o leitor, após acostumar-se à obra, não encontra dificuldades em acompanhar o decurso de cada história; pelo contrário, sente-se intrigado e mesmo sequioso de navegar por esse imbricamento textual, que desafia constantemente nossa atenção e entendimento.

A força poética da prosa de António Lobo Antunes sempre me fascinou. Em "Explicação dos Pássaros" não é diferente: seu lirismo visceral, altamente metafórico, a diluir passado, presente e futuro num fluxo narrativo vertiginoso, é simplesmente avassalador, imprimindo-nos a fogo o selo trágico da história de um homem à beira do abismo. É decerto um dos grandes escritores de língua portuguesa da atualidade - se não o maior.


Filipe Kepler 21/06/2011