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sábado, 4 de outubro de 2014

Kafka à Beira-mar - Haruki Murakami

The boy named Crow can't fly

Este é um daqueles livros em que um sofisma se faz necessário para explicá-lo: o problema deste romance é o autor. Sim, o livro só não é bom por causa de Haruki Murakami.




Em "Kafka on the Shore", o autor japonês de maior sucesso dos últimos anos nos apresenta a odisséia do garoto de 15 anos Kafka Tamura, que foge de casa a fim de escapar da profecia edípica de seu pai e reencontrar sua mãe e irmã, há muito desaparecidas. Assim como Kafka, também parte em viagem o bom e simples Nakata, um idoso que, após um incidente durante a Segunda Guerra Mundial, desaprendeu a ler e a compreender o mundo dos homens, porém desenvolveu a habilidade de conversar com gatos e de prever o clima. Ao longo da obra, acompanhamos como os caminhos desses dois personagens convergem inexoravelmente para um mesmo ponto e como Kafka e Nakata lutam para descobrir a missão que lhes coube pelo Destino.

Murakami constrói caminhos tortuosos para um enredo com matizes surrealistas e especulações metafísicas, tais como sobreposição de realidades, eventos acontecendo fora do tempo, bem como o caráter onírico da existência. No entanto, para um projeto tão ousado falta-lhe técnica – a bem da verdade, menos técnica do que bom senso. O romance tem, de fato, deficiências: é demasiado descritivo, algumas das elucubrações metafísicas perdem-se a meio caminho e o ritmo do romance oscila muito, alternando longos e cansativos trechos com outros extremamente dinâmicos e instigantes. Contudo, tais problemas técnicos não chegam a arruinar o todo, e o romance, de uma maneira geral, prende o leitor com sua mistura de realismo e sonho.

O real estigma da obra reside no mau gosto do autor. Em primeiro lugar, na constante referência de Murakami a produtos, grifes e artistas do Ocidente, o que soa antinatural e absolutamente kitsch, ainda que possa parecer exótico e aprazer ao público japonês; em segundo, em sua insistência num erotismo trivial e grosseiro. O livro é permeado de cenas descabidas de sexo que, salvo raras exceções, pouco acrescentam à história. Tais episódios eróticos são mal executados e dificilmente se encaixam nos contextos em que aparecem. Por sua recorrência ao longo da obra, passam não a chocar o leitor (talvez sua intenção primeira), mas sim a irritá-lo por sua inverossimilhança, servindo apenas para desviá-lo do enredo propriamente dito. Perturbadora também é a obsessão fálica do autor, que parece sofrer de algum complexo, possivelmente o de Portnoy...

Ao fim e ao cabo, a impressão final que a obra nos deixa é a do que poderia ter sido, e não foi. Uma pena, pois "Kafka on the Shore" tem grandes momentos. Porém, para um livro de 500 páginas, os grandes momentos são curtos e por demais espaçados. Talvez se Murakami passasse menos tempo querendo ser Kafka, García Márquez e Philip Roth, o romance voasse mais alto e a obra fizesse jus ao sucesso do autor.


Filipe Kepler 01/9/2011 (lido em inglês)

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Caçando Carneiros - Haruki Murakami

Carneiros, consumismo e solidão

Caçando Carneiros foi lançado originalmente no Japão em 1982 e foi o romance do escritor Haruki Murakami que abriu os olhos do público para o início de algo grande. Cinco anos mais tarde, com o lançamento de “Norwegian Wood”, teríamos o que foi chamado Fenômeno Murakami.



 

O livro, traduzido para o português pela grande Leiko Gotoda, é narrado em primeira pessoa por um jovem publicitário – cujo nome jamais ficamos sabendo – de carreira enfadonha, mas que, como todo e qualquer japonês adulto, precisa suar muito a sua camiseta no emprego. Ele tem cerca de 30 anos, vive uma vida pacata e trabalha em Tóquio com um sócio, um velho amigo bêbado inveterado. Convive com sua ex-mulher e uns poucos amigos. Tudo aparentemente muito comum, até que sua situação muda: ele recebe uma carta e algumas fotos. E sua vida nunca mais foi a mesma.




Mais tarde, um homem misterioso visita o protagonista em seu escritório e, após uma longa conversa, o incumbe com a extraordinária tarefa de sair à caça de um carneiro com uma estrela nas costas, numa cidadezinha provinciana da distante região de Hokkaido, ao norte do Japão. O homem compartilha o fato de que o tal carneiro não é um animal comum, longe disso. Como se não bastasse, o misterioso visitante diz ao protagonista que, se ele não encontrar o carneiro dentro de um mês, a vida do jovem será arruinada. E assim, sem entender absolutamente nada sobre o que está acontecendo, e nem ao menos compreendendo porque fora escolhido, ele se lança em uma busca fantástica, atravessando o Japão para encontrar o único carneiro que pode trazer novamente algum sentido ao seu cotidiano. No caminho, ele acaba encontrando personagens peculiares: uma modelo de orelhas sedutoras, um grupo político com um chefe enigmático e, bem, um homem-carneiro. Nenhum dos personagens do romance possui nome, sequer o gato de estimação. Nessa jornada, nosso narrador se verá no lugar de um excêntrico detetive que, ao mesmo tempo em que recolhe pistas e tenta esclarecer enigmas, descobre um pouco mais sobre si mesmo.



  
Impressões sobre a leitura.
As primeiras páginas são carregadas de uma lentidão por vezes penosa. Nada acontece, nada dá a entender que algo vá um dia acontecer. São parágrafos e mais parágrafos de descrições, das mais variadas. Daí então você percebe que ninguém tem nome. Absolutamente ninguém. A trama começa a se desenrolar e você vê que marcas de produtos tem proeminência sobre nomes e sentimentos humanos. Mais algumas descrições. Nada faz sentido. Até que então tudo faz sentido. As primeiras páginas entediantes estavam introduzindo o ritmo do romance, preparando o leitor para o mundo que se descortina aos seus olhos: um mundo de ações calculadas, materialismo, consumismo, irracionalidade, fantasia e doses cavalares de tristeza e solidão. É um romance com cunho detetivesco e pós-moderno no qual sonhos, devaneios e a mais fértil imaginação tresloucada são mais cruciais do que provas ou pistas.
A narrativa possui um tom de mitologia e de peso histórico bastante atraentes. Menciona Gengis Khan e eventos de suma importância na história moderna, tudo imerso em mistério. O autor aqui sabe como criar personagens carismáticos com os quais acabamos por nos apegar. Ele também traça habilmente a personalidade de cada um deles e delineia magistralmente o rumo que cada um deles tem a tomar, controlando seus destinos e ajudando-os a redescobrir suas vidas.
Tal qual Kafka, Murakami, aqui, demonstra possuir a capacidade de unir o real e o inverossímil de maneira atraente e despertando a curiosidade do leitor. Ele põe à prova seu estilo único de contar histórias recheadas de absurdos visíveis e encontra o merecido sucesso pelo seu bem escrever.


Um dos grandes diferenciais da obra de Murakami com relação aos seus compatriotas é o fato de que seus personagens, apesar de imersos até o pescoço num mundo de fantasia, vivem no Japão uma realidade quase igual à nossa ou de pessoas de muitos outros países. Dão o melhor de si mesmos por suas carreiras, bebem demais, vagam por casamentos desfeitos, vivem vidas tortuosas. E tudo isso e muito mais sem um único quimono à vista, um único samurai a ser mencionado ou uma gueixa sequer. Trata-se do que alguns já chamaram de ocidentalização, o que já foi chamado de globalização e que, hoje em dia, é nada mais nada menos do que a unificação cultural através da influência dos meios de comunicação em massa, tema amplamente trabalhado em seus livros, mas que ainda é tratado como assunto à parte pela maioria dos autores nipônicos e principalmente pelos críticos literários daquele país.

Murakami é um autor que sabe muito bem como contar histórias imbuídas com o extraordinário. Mesclando situações banais com fatos inexplicáveis, ele guia o leitor por suas narrativas oníricas, num mergulho em seu universo único.



Ricardo Machado 08/09/2014 (lido em Português e Japonês)