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sexta-feira, 5 de setembro de 2014

A Vida de Pi - Yann Martel



Um indiano, um tigre, um plágio

O livro do espanhol Yann Martel é o relato de um menino indiano - chamado Piscine Molitor Patel, “Pi” Patel - que sofre um acidente em alto mar quando o navio em que viajava com sua família e alguns animais do zoológico pertencente a ela afunda.





Salvo – ou não – num bote salva vidas, ele vê seu navio mergulhando nas águas do pacífico, sem nenhum membro de sua família consigo – ou não – para lhe fazer companhia. Entretanto, ele conta com uma zebra, um orangotango e um tigre como colegas de viagem – ou não. E isso é apenas o início da narrativa.

Pi é um menino muito curioso que, ainda bem jovem, decide abraçar três religiões ao mesmo tempo: o hinduísmo, o cristianismo e o islamismo. Além do mais, por ser o filho de um dono de zoológico, ele tem grande conhecimentos sobre a vida e o comportamento dos mais diversos animais.

"A Vida de Pi" é um romanceado livro de auto-ajuda. É a malfadada saga de um menino temente a Deus e de um tigre – ou não –, ambos jogados num barco salva-vidas por 227 dias e se deparando com peixes-voadores, tartarugas, suricatas e uma ilha carnívora (gulp!). Ou seja, é um daqueles livros imbuídos com a mensagem “se você lutar, você conseguirá!” e alguns toques de religião e veterinária permeando a tragédia oceânica do personagem central. 

Ainda que possivelmente bom para ser indicado para adolescentes, a aventura do super-religioso, veterinário proficiente e explorador da national geographic Pi Patel é irreal e deixa poucas lembranças após sua leitura. É a força vital e o desejo de sobreviver versus um tigre e um oceano imprevisível e impiedoso, contados no melhor estilo “filosofia para dummies”.

            A obra teria sido um plágio do livro “Max e os Felinos”, do escritor brasileiro Moacyr Scliar, segundo dizem. Basta uma rápida consulta para percebermos que a única semelhança entre os dois livros é o fato de o personagem principal estar preso num barco com um felino selvagem, aqui um tigre, lá um jaguar. Yann Martel teria dito que não poderia ter escrito um plágio, pois Scliar seria “um escritor menor que eu jamais li”. Mas não é assim que funciona. Bem, "Max and the Cats" está no mercado americano a bem mais de 25 anos, enquanto que o livro de Martel não tem muito mais do que 10 anos.

Depois de anos de críticas e cutucadas entre os dois, Yann colocou panos quentes na polêmica com um telefonema a Scliar e uma tonelada de explicações à imprensa. Martel abafou, Scliar perdoou. 

Comparando os dois é possível ver que não há chance de plágio na trama, fora o ambiente retratado ser o mesmo – mar, bote, tigre. A ideia central entretanto, parece ter sido muito bem reaproveitada por Martel. A história de Pi e seu amigo Tigre se tornou uma febre mundial entre adolescentes de todas as partes e fez com que o filme virasse um grande sucesso de bilheteria, o que impulsionou ainda mais as vendas do já então best-seller e vencedor do Man Booker Prize "The Life of Pi".

Seja como for, Scliar faleceu e nos deixou com seu legado de maravilhosas obras, Martel publicou seu segundo volume no Brasil, “Beatriz e Virgílio”, e poucos leitores sabem da coexistência das obras. Além do mais, o livro de Scliar continua sendo melhor.


Ricardo Machado 05/08/2011 (lido em inglês)

terça-feira, 26 de agosto de 2014

A Flor do Sal - Rosa Lobato de Faria

Romanceando um romance português

O romance "A Flor do Sal" é um romance histórico e, ao mesmo tempo, não é um romance histórico. Explico: a obra remonta ao passado lusitano heróico do século XV, porém usando-o como contraponto do Portugal atual, do século XXI.




A autora promove uma construção romanesca que se firma sobre duas narrativas. Ela nos narra a história do navegador português Afonso Sanches, que teria chegado à América doze anos antes de Cristóvão Colombo, mas que, por ordem do rei D. João II, teve de calar-se por estar em curso a famosa querela ibérica sobre a supremacia dos mares - disputa esta que culminaria posteriormente com a elaboração do Tratado de Tordesilhas, dividindo as terras recém-descobertas do Novo Mundo entre os dois reinos.

No entanto, sua história não nos é contada diretamente: como uma tradução indireta, é por meio da escritora Guiomar que temos notícias das aventuras e dos dissabores do navegador, cujo espírito materializa-se todas as noites para a escritora, a fim de narrar-lhe sua trajetória e ter seu nome escrito na história. Esta passa então a escrever um romance sobre Afonso Sanches, participando a nós, leitores, o processo de elaboração da obra. Por conseguinte, temos, da “outra ponta” do romance, a história da própria Guiomar, que nos conta do andamento de seu livro, das pesquisas, da futura publicação, bem como de seu romance com o irmão gêmeo, Lourenço. Ambos se consideram a metade perdida do outro e vivem com ardor essa paixão proibida, desfrutando, de um lado, de toda a felicidade que ela lhes proporciona, mas também arcando, do outro, com todo o sentimento de culpa e transgressão que dela advém.

A autora nos apresenta, portanto, duas histórias diferentes, em capítulos alternados: uma é o romance (a história de Afonso Sanches); a outra é o romance da feitura do romance (a história do andamento do livro sobre o navegador e do amor controverso entre Lourenço e Guiomar). Entretanto, apesar de distintas, as duas narrativas se constroem numa perspectiva de complementaridade, na medida em que uma se realiza a partir da outra. Isso se dá pelo fato de a narrativa de Afonso Sanches ser uma criação de Guiomar, mas que se desenvolve a partir do depoimento de uma pessoa real. Com efeito, há indícios históricos de que tenha existido um navegador português de nome Afonso Sanches que teria chegado à América antes de Colombo. No entanto, há pouquíssimas informações a seu respeito, de modo que Guiomar tem de se servir da ficção para preencher as lacunas da história.

Forçada, portanto, a inventar-lhe a vida, Guiomar faz uso de diversos elementos de sua própria história para conceber desde a personalidade até os amores do navegador. No entanto, ela mesma é também uma personagem ficcional, de modo que tanto a narrativa sobre Afonso Sanches quanto a narrativa sobre o andamento do livro sobre o navegador são criações fictícias. Trata-se da famosa metaficção: aquela que identifica conscientemente seus próprios mecanismos, a referência da referência. Em nenhum momento ela nos permite esquecer de que estamos diante de uma obra ficcional, embora se esforce, paradoxalmente, em fazer-nos crer no contrário.

"A Flor do Sal" de Rosa Lobato de Faria é um convite ao leitor a empreender uma grande viagem: uma viagem ao passado e, sobretudo, à (re)construção deste passado. Amparados pelo leme seguro de seu lirismo refinado e sutil, navegamos, sob o comando do destemido navegador Afonso Sanches, pelos mares do passado em busca de novas terras para o presente, novas paisagens jamais vislumbradas pelos olhos da história. E ao final da travessia, assim como Afonso Sanches, deparamo-nos, também nós leitores, com a outra ponta do mar: as paragens do século XXI, em que vivem Guiomar e Lourenço, portugueses dos nossos dias, figuras de um povo que vive ora em terra firme, mas eternamente errante, eternamente a navegar pelas águas da memória, em busca das aventuras e glórias das distâncias do passado.


Filipe Kepler 12/07/2011