Neve de Primavera: pintando
contrastes
Em 25 de novembro de 1970, o Japão
foi surpreendido pela morte de um de seus maiores ícones literários do
pós-guerra, o escritor Yukio Mishima. Aos 45 anos de idade, Mishima cometeu seppuku (suicídio ritual) logo após a
tentativa frustrada de incitar um golpe de Estado que teria por objetivo
restaurar o poder ao imperador e impor a lei marcial. Segundo Mishima, esse
seria o primeiro passo para reverter a trajetória de decadência moral e
política do Japão desmilitarizado e ocidentalizado de pós-1945. O suicídio
transformado em espetáculo público, a polêmica das motivações políticas de
extrema direita do autor, bem como o caráter ritualístico de sua morte,
estariam fadados a alimentar o mito em torno do nome de Mishima e a tornar-se
motivo de elucubração da crítica por anos a vir. O fim que o escritor escolhera
para a própria vida causou tamanha repercussão, que acabou por ofuscar a
publicação do último romance a concluir sua ambiciosa obra prima, o panorama do
Japão do século XX: O Mar da Fertilidade (1969-1971).

Mishima vinha trabalhando na obra
desde 1964 e, até a data de sua morte, havia publicado já três romances,
restando-lhe apenas a conclusão do último livro para encerrar o círculo.
Mishima já havia inferido que poderia morrer depois que terminasse O Mar da Fertilidade, visto que não
acreditava poder escrever nada superior; porém ninguém imaginaria que ele
seguiria suas palavras à risca. Poucos meses antes de suicidar-se em novembro
de 1970, Mishima terminara o manuscrito do obscuro romance A Queda do Anjo (1971), que viria a ser publicado no ano seguinte,
encerrando assim a tetralogia.
Neve de Primavera (1969) é o primeiro romance da saga, publicado primeiramente em
folhetim, entre os anos de 1965-67, e em forma de livro, em 1969. A obra narra
a trágica história de amor entre Kiyoaki Matsugae e Satoko Ayakura e,
paralelamente, explora os conflitos sócio-culturais do Japão em decorrência da
onda de ocidentalização no início do século XX.
A ação se passa durante os primeiros
anos do Período Taishô (1912-1926), época marcada pela decadência da antiga aristocracia e a
ascenção dos partidos democráticos. Numa tarde de outubro de 1912, Kiyoaki
Matsugae e seu amigo, Shigekuni Honda, conversam à beira de um
riacho na suntuosa propriedade dos Matsugae, quando presenciam a chegada da
hóspede Satoko Ayakura, a belíssima filha de uma família da alta aristocracia,
acompanhada de sua tia-avó, a Abadessa do mosteiro de Gesshu.
Kiyoaki e Satoko, apesar de se
conhecerem desde tenra infância, vivem numa relação de pretensa indiferença.
Kiyoaki sabe do amor que ela lhe devota, porém ignora suas tímidas tentativas
de aproximação e sente certo prazer narcisístico em menosprezar-lhe os sentimentos.
Somente ao receber notícias do noivado entre Satoko e o príncipe Harunori e
vislumbrar pela primeira vez a possibilidade real de perdê-la para sempre,
Kiyoaki por fim toma consciência de seu amor por Satoko e decide lutar para
reconquistá-la. Em segredo, os dois iniciam uma relação ilícita ao longo da
qual hão de vivenciar o desabrochar ardoroso da paixão, porém também assistir
às flores de seu sonhos morrer sob o jugo das convenções e normas sociais da
época.

O caráter trágico que permeia Neve de Primavera é notório. A triste
história de amor de Mishima - as tribulações de dois jovens apaixonados que
lutam para ficar juntos, a despeito de todas as dificuldades - faz-nos lembrar eventualmente de
Shakespeare. No entanto, ao contrário de Romeu e Julieta, no qual o ódio entre
as duas famílias é o único fator a barrar o amor dos protagonistas, as causas
para a tragédia em Neve de Primavera parecem ser mais profundas. No início do
romance, não só as duas famílias são a favor da união de Kiyoaki e Satoko, como
inclusive encorajam a aproximação dos dois. A bem da verdade, a família de
Satoko acabou por noivá-la com o príncipe Harunori tão-somente pelo fato de
Kiyoaki nunca ter tomado a iniciativa em pedir a sua mão e por mostrar
indiferença à possibilidade de ela casar-se com outro. Ao contrário da obra
Shakespeariana, os próprios protagonistas parecem, inadvertidamente, impor barreiras à própria perspectiva de felicidade.
Da mesma forma, diversas situações
de conflito entre os dois também se dão pelo fato de Kiyoaki e Satoko possuírem
diferenças irreconciliáveis, que contribuem em boa parte para a tragicidade de
sua história: Satoko é honesta quanto a seus sentimentos e tenta demonstrá-los,
apesar de sua timidez; Kiyoaki dissimula os próprios sentimentos e age de
maneira a encobri-los; Satoko é magnânima e paciente; Kiyoaki é caprichoso e
intempestivo; Satoko acata, submissa, a decisão da família de casá-la com um
homem a quem mal conhece; Kiyoaki rebela-se contra o pai, quando este o proíbe de interferir no noivado de
Satoko; quando Satoko toma passos para se aproximar de Kiyoaki, este age de
maneira a afastá-la; quando Kiyoaki tenta insistentemente encontrar-se com
Satoko, ela lhe barra o caminho atrás de uma muralha de silêncio. Um parece ser
o exato oposto do outro e, não obstante suas diferenças, ambos perseveram em
sua tentativa inglória de ficar juntos.
A insistência de Mishima em
aproximar duas personalidades opostas apenas para se deparar com a aparente
impossibilidade de conciliação, não se dá ao acaso. A noção de conflito é
pivotal no romance e reflete-se não só no relacionamento conturbado de Kiyoaki
e Satoko, como também na relação ambivalente, na época, entre o Japão e o
Ocidente. A fim de manter-se como uma potência econômica relevante no cenário
mundial, o Japão se viu obrigado a render-se à tecnologia ocidental. Tal avanço
tecnológico, no entanto, veio com um preço: ao abrir as portas ao Ocidente, o
Japão também entrou inevitavelmente em contato com a cultura ocidental, o que
resultou em mudanças na comida, indumentária, nos costumes e, em última
instância, na cultura do país. Durante boa parte do século XX, o país lutou com
as implicações sociais, políticas e culturais que daí advieram.

Como outros pensadores do século XX,
Mishima preocupava-se com a situação da nação e ponderava sobre as
conseqüências e o impacto que uma ocidentalização descontrolada teria sobre a
identidade e tradição japonesas. Neve de primavera é o cavalete sobre o qual o
escritor escolheu pintar sua visão sobre
o dualismo irreconciliável que permeou a sociedade japonesa do último século.
Tal dualismo se reflete, sobretudo,
nas personagens que permeiam o romance. À parte das personalidades conflitantes
de Kiyoaki e Satoko referidas acima, outras personagens nos dão mostras de
viver divididos entre leste e oeste. O exemplo mais claro desse dualismo é o
Marquês Matsugae, pai de Kiyoaki. Apesar de descender de uma antiga e estóica família de linhagem samuraica, o
marquês fizera fortuna recentemente e adotara por completo o estilo de vida
ocidental: veste-se sempre à moda européia, é conhecedor de vinhos e faz
questão de que todas as
refeições em sua casa sigam os modelos europeus de etiqueta. Todavia, a mansão principal de sua
propriedade - na qual mora, sozinha, a avó de Kiyoaki com uma criada - é de estilo japonês. O
marquês poderia tê-la reformado para seguir os padrões ocidentais; contudo, por reverência à
tradição e respeito a sua mãe, Matsugae optou por manter a antiga casa e
construir uma segunda casa no estilo ocidental, na qual mora com a família e o
resto da criadagem. Da mesma forma, o enorme jardim que circunda a propriedade,
apesar de ostensivamente ocidental, já foi palco de diversas representações do teatro japonês,
bem como de uma apresentação de sumô por ocasião da visita do Imperador Meiji à
casa dos Matsugae. O marquês orgulha-se por ser um dos poucos a
ter recebido a família imperial em sua casa e ter-lhes oferecido uma recepção
tradicional à altura. Percebe-se, portanto, que, a despeito de sua presumida
"ocidentalização", o marquês mantém não só uma casa japonesa, como
também valores genuinamente japoneses: é como se ele fosse ocidental por fora, porém tipicamente japonês por dentro.
Exemplo inverso de tal dualismo
temos na casa de Shigekuni Honda, amigo de Kiyoaki. O austero juiz Honda e sua
diligente esposa mantêm sua casa em tradicional estilo japonês, no que diz respeito a indumentária,
refeições e, de maneira geral, móveis e decoração; no entanto o dia-a-dia
da casa é de todo
ocidental. O pai de Honda, quando jovem, passara alguns anos estudando Direito na
Alemanha e compartilha da predileção alemã pela lógica e a ordem. Por
conseguinte, mantém sua
casa num regime de severidade e retidão, onde tudo tem de estar na mais
perfeita ordem: todos os objetos da casa não só têm uma função, como
atendem a um específico
padrão de excelência. O mesmo se espera da criadagem: boatos, fofocas e
quaisquer demonstrações de frivolidade são silenciados por um mero olhar do
juiz. Ao contrário dos Matsugae, a aparência na casa de Honda é japonesa,
enquanto o "interior" é notadamente ocidental.
Tal qual a neve tardia que se
mistura com as flores a desabrochar na nova estação, Yukio Mishima nos oferece
uma obra que logra unir o cavalete
narrativo do realismo inglês com as cores do lirismo japonês. O
resultado é uma magnífica pintura de contrastes, que nos impressiona por sua
observação histórica e nos desola com sua trágica história de amor. Finda a leitura,
a sensação que nos fica é a de um estranho misto de enlevo e tristeza. Assim
como o amor de Kiyoaki e Satoko, Neve de
Primavera possui aquela espécie de beleza trágica, tão típica em Yukio
Mishima -- a beleza de uma flor de cerejeira, que, cheia de cor, enleva-nos o
espírito, enquanto despetala-se, devagar, diante de nossos olhos.
Filipe
Kepler, 07/07/2015 (lido em
inglês)